O que a troca de figurinhas da Copa do Mundo ensina sobre cooperação?

Pesquisa do IMD transforma brincadeira em laboratório para estudar decisões individuais e coletivas
23-07-2026 / ASCOM
Inovação Pesquisa
Pedro Weissheimer

O que a disputa por uma figurinha metálica ou a busca pela última peça de um álbum da Copa do Mundo revelam sobre como as pessoas cooperam — ou deixam de cooperar — em sociedade? Esse foi o ponto de partida para uma pesquisa realizada pelo professor do Instituto Metrópole Digital (IMD/UFRN) César Rennó-Costa, e outros coautores, e publicada no mês passado.

Utilizando-se de conceitos de áreas como a Economia Comportamental e a Teoria dos Jogos, o estudo verificou que comportamentos que prezam de maneira estrita pelo interesse individual imediato geram prejuízo a um sistema de trocas. Procedimentos considerados mais altruístas, por outro lado, tornam esse sistema mais eficiente para o conjunto dos participantes.

Toda a pesquisa nasceu de um trabalho em família. A ideia de pesquisar o tema surgiu a partir da observação de Rennó-Costa ao acompanhar seu filho de 8 anos trocando figurinhas com os colegas da escola e em outros pontos de troca. “Fiquei surpreso em como há certa complexidade nesses processos”, lembra ele.

O pesquisador conta que seu filho explicou as regras comuns estabelecidas nessas interações, como a que define que uma figurinha “especial” deve ser trocada por duas “comuns”. Enquanto isso, Rennó-Costa e sua esposa Luana Ferraz Alvarenga - estudante de doutorado no Programa de Pós-Graduação em Bioinformática da UFRN – observavam as interações e, a partir disso, colhiam informações para definir a metodologia a ser usada.

Com base nessa amostra das interações em torno do álbum da copa, o pesquisador teorizou que existiam fatores, que não eram óbvios nem necessariamente objetivos, que serviam de apoio para explicar o que faz alguém tomar uma decisão de troca.

“A gente começou a reparar que muitas pessoas tinham estratégias diferentes. Algumas eram um pouquinho mais egoístas, tipo ‘eu não troco o Cristiano Ronaldo’, e outras eram mais altruístas: ‘não, eu troco o que tiver’”, ilustra Rennó-Costa. Então ele aplicou a metodologia elaborada, trabalhando numa modelagem para tentar entender qual é o impacto das diferentes estratégias que cada uma das pessoas acaba empregando.

Metodologia

A pesquisa dialoga com a Teoria dos Jogos, área da matemática que estuda situações em que as decisões de uma pessoa são influenciadas pelas ações de outras. Nesse contexto, completar o álbum deixa de ser apenas um objetivo individual e passa a depender do comportamento coletivo.

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O processo de observação iniciou-se na JR Figurinhas, ponto principal de trocas localizado em Candelária (Natal/RN). O trabalho incluiu o mapeamento da estrutura de trocas e explicações acerca das regras em vigor.

Após isso, o estudo foi desenvolvido a partir da incorporação desses dados reais à área de modelagem e simulação computacional, com a análise dos dados sendo realizada por meio do método Monte Carlo, técnica computacional baseada na criação de diversos cenários aleatórios para analisar sistemas complexos, levando em conta elementos de sorte.

“Diferentemente de modelos matemáticos mais tradicionais, que precisam simplificar bastante um fenômeno para conseguir calculá-lo, a abordagem de Monte Carlo permite inserir mais detalhes e reproduzir situações próximas da realidade, exigindo maior capacidade de processamento”, esclarece Rennó-Costa.

Essa demanda tornou necessário o uso do supercomputador do Núcleo de Processamento de Alto Desempenho (NPAD/UFRN). “A partir dele, a gente construiu esse estudo para tentar entender qual é o impacto desses tipos de interações entre as pessoas, em específico as crianças”.

A metodologia foi aplicada para simular redes de jogadores, suas trocas e os impactos de diferentes normas sociais no custo final para completar o álbum. “Tal abordagem é utilizada em diferentes áreas científicas, como epidemiologia, estudos demográficos e análise de tráfego, justamente por permitir observar como pequenas decisões individuais podem provocar grandes efeitos coletivos”, explica Rennó-Costa.

Simulações

Com o uso do supercomputador do NPAD, as simulações envolveram diversos cenários, com o objetivo de descobrir o modo mais rápido de completar o álbum da Copa do Mundo de 2026 – que possui 980 figurinhas individuais, incluindo 68 metálicas, vendidas em pacotes de 7 unidades.

Foram criadas comunidades de diferentes tamanhos: 100 jogadores (representando uma cidade pequena) e 1.000 jogadores (representando uma cidade grande). As conexões entre os jogadores eram divididas entre "locais" (círculos sociais próximos) e "globais" (trocas casuais aleatórias).

As simulações operaram em rodadas discretas compostas por duas fases: a Fase de Compra, onde jogadores que ainda não completaram o álbum compram uma quantidade fixa de pacotes (padronizado em 10 por rodada); e na Fase de Troca, em que pares de jogadores são gerados dinamicamente para interagir e trocar figurinhas repetidas com base em regras específicas.

Dentro de ambas as fases, foram simulados quatro cenários principais de comportamento: Baseline, Strict (estrita), No Special, e Generous (Generosa).

A primeira assume uma razão de troca de 1:2 (uma metálica por duas normais). Já a segunda e terceira variam entre troca exclusiva de metálica por metálica ou ignoram o acabamento e troca tudo na base de 1:1, respectivamente. Por fim, o último cenário considera que jogadores avançados cedem figurinhas necessárias aos colegas sem exigir trocas equivalentes em valor de necessidade.

Rennó-Costa destaca que a estratégia generosa tende a criar uma rede mais eficiente, permitindo que figurinhas repetidas cheguem a quem realmente precisa delas. “Porém, uma estratégia rígida, em que cada participante busca proteger suas próprias figurinhas, apesar de parecer vantajosa no curto prazo, acaba reduzindo a circulação de recursos e aumentando o custo para todos”, adiciona o pesquisador.

De acordo com as simulações, no pior dos casos, estima-se que a generosidade pode reduzir a quantidade de pacotes necessários para completar o álbum em até 30 unidades; equivalente a um corte de custos individuais que varia entre R$150 e R$210.

Importância

A dinâmica observada nos ajuda a compreender outros ambientes sociais em que existe uma tensão entre competição individual e colaboração, indo além dos álbuns da copa. Segundo o professor, situações semelhantes aparecem em áreas como economia, inovação e relações entre instituições, nas quais comportamentos mais cooperativos podem gerar benefícios coletivos que não são percebidos imediatamente por cada indivíduo.

Dessa forma, apesar de bem simplificada, a troca de figurinhas acaba servindo como uma representação de processos que também ocorrem em mercados, organizações e comunidades. “Em contextos de inovação, por exemplo, modelos baseados em colaboração entre instituições podem produzir ganhos compartilhados, enquanto ambientes extremamente competitivos podem limitar a circulação de conhecimento e oportunidades”.

Outro ponto observado no estudo é a forma como os valores são construídos socialmente de forma subjetiva, para então tornarem-se “regras” de comércio. As figurinhas metálicas, por exemplo, não possuem necessariamente uma diferença objetiva de importância, mas passam a ser percebidas como mais valiosas porque a comunidade atribui esse significado a elas; o mesmo vale para figurinhas de jogadores mais famosos, como Cristiano Ronaldo. Essa valorização coletiva influencia negociações e cria normas compartilhadas, estabelecendo padrões econômicos e culturais mesmo em situações aparentemente simples.

“A troca de figurinhas funciona como um pequeno laboratório social: uma brincadeira infantil que permite observar como grupos criam regras, distribuem recursos e equilibram interesses pessoais e coletivos”, conclui César. A pesquisa mostra que, mesmo em atividades simples do cotidiano, decisões individuais podem transformar a eficiência de toda uma rede de pessoas.